Reposição Hormonal
Reposição hormonal na menopausa: o que mudou desde o estudo de 2002, a janela de oportunidade e por que a dose precisa ser feita sob medida.

Muito se fala sobre reposição hormonal, e há vários motivos significativos para isso.
De um lado, são inúmeras mulheres sofrendo com os efeitos da menopausa e sonhando com a melhora desses sintomas. Do outro, ainda existe desinformação e necessidade de esclarecimento sobre as controvérsias da reposição.
Em primeiro lugar, é necessário compreender que a reposição hormonal bem indicada cuida da saúde da mulher a longo prazo: iniciada na janela certa, ela pode trazer benefícios para os ossos e para o coração. A decisão sempre pesa os riscos de cada mulher, como o de câncer de mama.
Em segundo lugar, então, vem a melhora dos sintomas, que tanto judiam das mulheres e causam inúmeros sofrimentos físicos e psicológicos.
Só que a reposição não deve ser feita pela paciente sozinha, mas com um profissional, de modo individual e junto com a melhora da qualidade de vida: alimentação saudável, sono reparador, exercício físico, controle do estresse e o uso de suplementos, quando necessários, dependendo do quadro de cada uma.
Por que a reposição hormonal é tão importante
O que acontece com os ovários e o organismo da mulher quando ela atinge os 40, 45 ou 50 anos de idade?
A mulher nasce com cerca de 1 a 2 milhões de óvulos nos ovários, que já estão programados para desaparecer por atresia; trata-se de uma característica nossa como seres humanos, um processo natural.
Esse fenômeno também é influenciado pelos hábitos de vida, mas, ainda assim, os óvulos entram em atresia e desaparecem espontaneamente, independentemente do que a mulher fizer.
A mulher tem cerca de 6 milhões de óvulos, seu número máximo, na 20ª semana de gestação, ainda dentro do útero materno. Quando ela nasce, esse número já caiu para cerca de 1 a 2 milhões. Na puberdade, são 400 mil nos 2 ovários, ou seja, 200 mil em cada um. A partir dessa fase, ela ovula uma vez por mês, um óvulo, e perde cerca de mil óvulos em cada menstruação, por atresia.
Então, se ela ovula uma vez por mês durante aproximadamente 30 anos, acaba gastando quase 400 mil óvulos nesse processo.
Aos 40 anos, além de não ter mais uma quantidade suficiente de óvulos para manter o ciclo menstrual, ela também apresenta envelhecimento dos óvulos que ainda possui. Dessa forma, o corpo lúteo, que é a estrutura formada dentro do ovário após a ovulação e responsável pela produção de progesterona, tem sua produção comprometida.
Conforme a mulher envelhece, a produção de progesterona no corpo lúteo deixa de ser suficiente e passa a ser deficitária. Por isso, a mulher começa a apresentar os primeiros sinais do climatério, da menopausa.
Menopausa é o termo que se usa quando a mulher fica pelo menos um ano sem menstruar.
O climatério, ou perimenopausa, começa 5 anos antes da menopausa e vai até 5 anos depois da última menstruação, em média. Nessa fase, ela começa a sofrer os sintomas decorrentes, primeiro, dessa falta de progesterona: dificuldade para dormir, uma névoa cerebral com dificuldade de raciocínio, falta de foco e de memória, cansaço extremo e irritabilidade.
Por tudo isso é que o primeiro hormônio que a mulher deve repor nessa fase, quando há indicação, é a progesterona!
Como ocorre a reposição?
A reposição de hormônios hoje é feita com hormônios bioidênticos, ou seja, com a mesma estrutura molecular daqueles que a mulher produzia pelos ovários quando tinha cerca de 25 anos de idade. Ela é feita com gel ou adesivo transdérmico e, no caso da progesterona, por via oral.
A dose é individual, e é o acompanhamento regular que permite ajustar riscos e benefícios para cada mulher.
É possível levar a qualidade de vida a um patamar muito mais saudável se ela também melhorar os hábitos alimentares e cuidar da longevidade como um todo, incluindo, em casos selecionados, abordagens da medicina regenerativa, como as Células-tronco, que ainda estão sendo estudadas.
Qual a origem da polêmica da reposição hormonal?
Alguns profissionais e pacientes ainda temem a reposição hormonal por causa de um grande estudo feito nos Estados Unidos, o Women's Health Initiative. Esse trabalho usava hormônios que não tinham a mesma estrutura molecular dos hormônios produzidos pelos ovários da mulher, como os que usamos hoje. Nesse estudo, as participantes eram, em grande parte, mulheres mais velhas, que já estavam na menopausa havia mais de 10 anos, depois do momento ideal, e que tinham outras doenças associadas.
A média de idade das mulheres no estudo foi de 63 anos, e muitas apresentavam hipertensão arterial, sobrepeso, sedentarismo e tabagismo, verdadeiras bombas atômicas para qualquer tipo de problema clínico e cardiológico. Foi fornecido, no estudo, para essas mulheres o hormônio estrogênio retirado da urina de éguas grávidas, por via oral, além de um progestagênio sintético, a medroxiprogesterona (hoje pouco usada na reposição hormonal).
Na época, era o que existia e o que melhorava os sintomas. Algumas dessas mulheres se beneficiaram do tratamento. Porém, os efeitos negativos apareceram: aumento do câncer de mama, de doenças cardiovasculares e de derrame cerebral. Por isso, o estudo foi interrompido depois de cerca de cinco anos, em vez dos oito anteriormente planejados.
Os resultados do Women's Health Initiative, publicados em 2002 no JAMA, tiveram enorme repercussão na imprensa e foram generalizados para todas as mulheres. Análises posteriores mostraram que a idade e o tempo de menopausa mudam muito o balanço entre risco e benefício. Muita coisa mudou de lá para cá, e novos estudos foram realizados. Hoje se sabe que, quando indicada, a reposição hormonal traz mais benefícios se for feita cedo, a partir do momento em que a quantidade de progesterona e de estrogênio começa a diminuir, e com hormônios bioidênticos.
Existe uma janela de oportunidade, que são os primeiros 10 anos depois da menopausa. Por que essa janela? Depois não pode? Pode, em alguns casos, mas os maiores benefícios ocorrem quando se começa precocemente.
Alta-costura
Além disso, a reposição deve ser, de preferência, por via transdérmica, que evita a primeira passagem do estrogênio e da testosterona pelo fígado. Já a progesterona pode passar pelo fígado porque ela produz outros metabólitos que são importantes, principalmente para o cérebro.
É importante fazer o controle a cada 6 meses e ir se adaptando.
A reposição hormonal é como alta-costura, não é prêt-à-porter, em que se pode chegar numa loja e pedir um número específico, como o 42. Não existe receita de bolo. É preciso ir ao médico e, de acordo com os sintomas, verificar a falta de hormônio, quais hormônios, a fase em que se está e, a partir daí, o profissional vai estruturar uma quantidade de hormônio para a reposição. O processo começa com uma dose baixa, que depois vai aumentando ou diminuindo conforme os sintomas se apresentam.
A reposição hormonal não é o elixir da juventude: é preciso melhorar os hábitos de vida, como atividade física, orientação alimentar, sono reparador, controle do estresse e peso saudável e estabilizado.
Não é só para fazer a reposição hormonal que a mulher precisa tomar essas atitudes, mas para melhorar sua qualidade de vida, bem-estar e longevidade.
E cada caso é um caso: a melhor reposição é aquela pensada para você, com avaliação individual e acompanhamento ao longo do tempo.

Sobre o autor
Dr. José Bento de Souza
Médico ginecologista e obstetra
Ginecologista e obstetra desde o início dos anos 1980, ligado às maternidades dos hospitais Albert Einstein e São Luiz, em São Paulo.
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